Tá tudo bem desistir de doer

Um fato curioso da minha vida é a minha formação em Ciências Farmacêuticas na Universidade de São Paulo. É uma das partes da minha história de que eu me orgulho e, ao mesmo tempo, briguei tanto para me divorciar.

Mas, olhando para trás, é bom reconhecer o quanto vivi e experienciei coisas diferentes naquela época. Ver o quanto foi uma experiência rica me deixa feliz.

Um dos grandes momentos da minha graduação foi viver um ano de intercâmbio pelo programa Ciência Sem Fronteiras em Adelaide, na Austrália, que me permitiu adicionar um semestre extra de patologia na minha grade horária. 

A Orquestra da Inflamação

O estudo da doença, ou patologia, se concentra principalmente em diferentes rotas pelas quais o corpo ativa a inflamação. Eu tenho meu caderno de resumo até hoje… PAMPs e DAMPs (padrões moleculares associados a patógenos ou a dano), quimiocinas e mediadores celulares — uma orquestra minuciosa acontecendo dentro do seu corpo para restabelecer a homeostase, que por definição significa a propriedade autorreguladora de um sistema ou organismo que lhe permite manter o seu estado de equilíbrio.

Nosso corpo é extremamente eficiente nesse processo de resolução que podemos passar a vida inteira sem notar o que está acontecendo. No entanto, uma das características interessantes da inflamação é que ela tende a ser um processo doloroso: a tentativa do nosso corpo nos contar que algo está desequilibrado.

Se cortamos o dedo, sentimos a dor para olhar para o ferimento e permitir a recuperação. Quando possível, tornamos o processo mais fácil, por exemplo: limpamos a ferida, tiramos os cacos de vidro e colocamos pressão para estancar o sangramento. 

A Dor Emocional como Mensageira

Essa autorregulação física funciona como uma metáfora perfeita para a dor emocional. Um coração partido, uma decepção ou a vergonha não usam os mesmos caminhos biológicos, mas a dor que causam também é um convite para estarmos presentes com o estímulo que a gerou. 

No livro “Maturidade Emocional”, Frederico Mattos, psicólogo e palestrante, fala sobre como sentimentos e emoções sempre passam informações importantes sobre nosso mundo interno. Mas, de maneira interessante, é muito mais fácil tratar da dor física — um corte, infecção, contusão — do que daquelas emocionais.

Temos a tendência de deixar as emoções infestarem nossa mente antes de olhar para elas de maneira pragmática e, como diria meu pai, “limpar a área”. 

A Honestidade Brutal do Access Consciousness

O Access Consciousness, o conjunto de ferramentas de autoconhecimento que muda a minha vida desde 2019, tem um convite provocador: esteja disposto a mentir para todo mundo, menos para si mesmo.

Sentada aqui, essa frase vem à tona com força. É menos sobre como se comportar com os outros e mais sobre olhar para si.  Estar disposta a olhar para mim mesma e avaliar o que é que estou contando para mim — quais são os pensamentos, sentimentos e emoções que estão passando aqui pela minha cabeça e que estou permitindo infestar em vez de olhar para eles e “limpar a área”. Quais são as mentiras que estou comprando que funcionam como uma farpa na ferida, impedindo a pele de cicatrizar?

Desistindo com Propósito

Eu não desisti da minha formação na USP, mas lembro de, em algum ponto, gritar com meu pai que eu queria rasgar meu diploma porque tinha perdido tempo da minha vida fazendo algo de que eu não gostava. Ao meu pai, peço desculpas pela grosseria; eu menti. Não lembro quase nada de farmacologia, mas aproveitei cada segundo da graduação: conheci pessoas, fiz esportes, viajei, me apaixonei múltiplas vezes e desenvolvi habilidades valiosas. 

Foi durante a faculdade que comecei meu processo de acompanhamento com a psicóloga e de autoconhecimento. Lembro das primeiras sessões com a Dra. Fabiana, onde eu relatava sentir muita tristeza o tempo todo, até me dar conta de que o eu identificava como tristeza era apenas cansaço. 

Eu não desisti da farmácia, mas eu desisti da minha pós-graduação em acupuntura logo no primeiro semestre porque notei que morria de medo de agulhas. Consegue imaginar seguir numa formação assim?  Mesmo assim, esse tempo me permitiu estudar as bases da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), que busca o equilíbrio do corpo muito antes de a doença aparecer. A MTC mostra que as emoções nos alertam bem antes do colapso físico. 

É interessante observar que esse conjunto de escolhas e recomeços trouxeram pequenos pedaços de mim, me ensinando de maneiras diferentes como ser mais honesta comigo mesma e lembrar com frequência que não é necessário adoecer para poder mudar.

É possível desistir de doer.

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11 de junho de 2026


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