De maneira geral, penso que sou uma boa comunicadora. Minha mãe relata que, na pré-escola — no famoso Tenshi Yōchien em Suzano-SP, a escola de freiras católicas japonesas (yep, é isso mesmo que você leu) —, ela era frequentemente chamada para conversar com a diretoria porque euzinha não parava de falar e atrapalhava as outras crianças.
Não lembro da minha adolescência com muitos detalhes além de ser uma típica emo dos anos 2000 que optou por cortar o cabelo curto (um erro). Mas eu gostava de escrever poemas angustiantes de amor não correspondido e copiava à mão letras de música sobre a dor do amor em vários cadernos diferentes — aqueles onde os adesivos nunca eram utilizados e as últimas folhas ficavam sempre vazias. Também gostava de escrever diários, supersecretos (só que não), que, além dos amores platônicos, relatavam minhas aventuras nas buatchys mogianas e as bocas que não escapavam das minhas vontades (bons tempos).

Durante a faculdade, aprendi a me apresentar em público e a desenvolver a lábia de falar com segurança sobre assuntos que eu não entendia muito bem. Na vida adulta, de uma forma ou de outra, estive sempre me comunicando com as pessoas. Cheguei até a ajudar a fundar um Toastmasters — um clube internacional de oratória — em uma das empresas de pesquisa clínica em que trabalhei, só para praticar falar em inglês em público com outros colegas.
Não tenho certeza de qual foi o exato momento em que comecei a pensar que talvez se comunicar e se conectar com as pessoas não era uma das minhas melhores opções. Mas aposto todas as minhas moedas que o período da quarentena potencializou isso, por ter aumentado drasticamente o tempo que passei em diálogos mentais em vez de me conectar com gente de verdade. Fui dando audiência para um comitê interno de segurança, com discursos sem fim sobre os perigos da proximidade e de se engajar com outros seres humanos.
Sem nem perceber, fui limitando aos poucos a minha expressão. Fui falando menos, escrevendo menos e me divertindo menos por tabela. Flertar, então? Crime capital — afinal, eu poderia matar alguém de Covid se tentasse sair por aí beijando na boca. Com o tempo, foi ficando mais fácil arquivar essas vontades numa caixinha guardada no fundo de mim. Para completar, minha criação com enfoque religioso contribuiu para reforçar esses bloqueios e abafar minhas habilidades. Somada às notícias sobre uma calamidade a nível mundial, a culpa católica uniu-se à culpa kardecista (se não fosse o Diabo, seria uma legião de obsessores para me castigar) e o estrago estava feito. “Conversar é engajar, engajar traz proximidade, proximidade não é seguro”, o comitê da minha mente decretou, e eu aceitei.
Mas de que adianta tentar abafar algo que faz parte de você? O prazer de falar e de me expressar nunca saiu de mim; não era como se pudesse ser removido, mesmo com tanto esforço na direção contrária. No entanto, em vez de ser algo fácil e natural, aquilo se perverteu em um motivo para ter vergonha e culpa. E o que acontece quando a gente tenta reprimir uma parte de si? Faz mal para o nenê. E o nenê é você.
É como tentar segurar um pum e ficar com cólica. É a mesmíssima coisa, só que dentro da sua cabeça. Peidos mentais criando a cólica dolorosa da saúde mental. Tentar guardar a sua expressão criativa, seja ela qual for, é antinatural. É tentar tapar o lado mais exuberante de si mesmo. É nadar contra a correnteza. Você pode até conseguir chegar do outro lado, mas chega exausto.
O Diário de uma Desistente é a minha escolha de nadar a favor da corrente. É decidir sair desse espaço de acreditar cegamente na minha mente traumatizada (pobrecita) e escolher o que é realmente melhor para mim. É onde não dou ouvidos aos cálculos apocalípticos do que “é seguro e o que não é”, ou ao conselho de “me poupar para não ter que viver algo que fatalmente vai dar errado”.
Optei pela escrita porque estou dando os passos necessários, ainda que cautelosos, na direção do que é natural para mim. Eu desaprendi a confiar em mim, mas estou disposta a retomar esse processo. Devagarinho, vou me permitir errar. Vou exercitar o escrever, que é onde posso colocar tudo para fora, editar, reeditar, repetir e alterar quantas vezes eu quiser. E me permitir sentir prazer nisso.
Quero treinar o ouvir a voz mais importante para mim: aquela que ficou abafada pelo comitê. Vou escutá-la com mais carinho para que, na hora de trazer essa voz ao vivo, ela não saia tão faminta, atropelando tudo e expressando mil emoções de uma vez só, feito rolha de champanhe.
Gostaria de dizer que, como uma mulher de 36 anos, já fiz terapia o suficiente para ser um super-ser da inteligência emocional e da comunicação não violenta, e que essa sensação de explosão da rolha voadora não existe mais no meu mundo. Mas eu estaria mentindo. Então, cá estou eu, sendo ousada demais (de acordo com o comitê) ao autorizar essa voz a sair. Estou aqui para contar essas histórias que moldaram alguns traços de personalidade interessantes, e para usar este blog como ferramenta para não dar tanta relevância a esse conselho tão conservador da minha mente. Quero ouvir quando essa voz me disser que está tudo bem errar, desde que eu não pare. Pessoalmente, torço para que, quando essa voz sair da minha boca, ela venha sem o medo de não poder editá-la.
A você que está lendo, espero que esta escrita possa te incentivar a não silenciar a sua própria voz criativa. Aquela que sussurra ou que grita por algo diferente: por conexão, por mais leveza, por mais prazer, por uma vida mais alegre. Que este texto te estimule a não deixar o que te silencia falar mais alto.
Está tudo bem desistir do silêncio.
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12 de junho de 2026
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